Com a variedade de sons, luzes e cores que disparam simultaneamente ao tentar manter a bolinha no tabuleiro, não é à toa que muitos apelidam as máquinas de pinball de “um mundo sob vidro”. Ao se levar em conta essa lógica, dá para dizer que Ricardo Kobe possui um vasto sistema solar na própria coleção, com mais de cem “planetas” no Old School Pinball, em São Paulo, um dos maiores arcades da América Latina.Na adolescência, Kobe pegou a era de ouro do pinball no Brasil. A rotina se resumia a ir até a escola com os irmãos e depois passar o tempo com os amigos no arcade mais próximo, sempre torcendo para que o dono não percebesse quando enrolavam a ficha que aciona a mesa com um barbante e ficavam “pescando” a moeda. Para economizar, valia tudo. “A gente entrava no fliperama e o cara não parava de olhar para você, porque ele queria saber se você ia sacanear a máquina. A gente até levantava a mesa para ganhar a bola” — lembra. No fim da década de 1980, Kobe, antes apenas entusiasta, se tornou também um colecionador. Com a queda da popularidade dos fliperamas por conta dos consoles de videogame, as máquinas de pinball passaram a ser tratadas como sucata e vendidas a granel: “Já recebi ofertas de R$ 25, R$ 50 cada uma, mas tinha que levar 100 unidades. Onde é que eu vou pôr 100 máquinas, cara? [...] Era preço de sanduíche”. O acervo aumentou com o tempo até que o útil se unisse ao agradável, e o hobby se tornasse um negócio: o Old School Pinball, na região central de São Paulo. “Eu sempre achei que a máquina de fliperama tem que se pagar. [...] Quando bolei isso aqui, fiz como um lugar que eu gostaria de ir junto com meus amigos”. E assim o fez. Placas de anúncios vintage em neon iluminam as paredes. Prateleiras e mais prateleiras expõem brinquedos e objetos sortidos de décadas passadas, como telefones, garrafas de refrigerante, caixas e máquinas fotográficas. A trilha sonora que embala as noites do Old School Pinball é regada a sucessos de Tears for Fears, New Order e Rick Astley. No teto, dezenas de unidades do brinquedo Genius servem de luminárias multicoloridas que iluminam o local. Um mausoléu dedicado a um tempo que não voltará mais. Por um breve momento, as novas gerações se sentem nos anos 1980 e 1990, enquanto os mais velhos se sentem em casa. “Eles batem o olho na vitrine e se identificam com quase tudo. Porque eles viveram aquilo. É diferente de um jovem que vem aqui de 20 e poucos anos [...] ele olha e só acha legal. Já o cara que tem uma certa idade vê um negócio e ele fala: ‘Pô! Eu já fui nessa loja. Quando eu pegava táxi, tinha esse negócio, eu ligava nesse telefone’”, conta, entusiasmado. Atualmente, Kobe é mais apaixonado por colecionar esses objetos e replicar tais sentimentos do que expandir o próprio acervo de máquinas. Tem, inclusive, planos de expandir para um lugar maior e abrir um museu “com M maiúsculo”, como diz. Veja a entrevista na íntegra:R7 Entrevista — Sua paixão por fliperamas começou na infância. Quais máquinas você jogava naquela época? Ricardo Kobe — Cara, quando eu saía da escola, eu jogava — e as máquinas que eu vou te falar agora você não acha, é muito difícil — a Williams Soccer e a Jack in the Box, que eu tenho aqui. Na época que eu comecei a jogar, só existiam máquinas eletromecânicas, que são aquelas de rolete, que tocam sininho.Muito depois, em 1973, é que apareceram as nacionais da Taito, que já eram eletroeletrônicas. A Taito daqui não tinha nada a ver com a do Japão, mas ela fabricou por muitos anos. É uma máquina que até hoje atrai público.R7 Entrevista — Como eram as coisas nessas décadas? Havia um certo estigma contra quem frequentava fliperamas, não é mesmo?Ricardo Kobe — Sobre isso de estigma, existe essa má lembrança afetiva e o escambau, mas metade do que o pessoal conta não aconteceu. Por exemplo, a lenda sobre usar uma ficha de gelo, eu diria que é impossível. Você já viu o tamanho de uma ficha? Como é que você vai fazer ela de gelo, daquele tamanho da ficha, e levar até o fliperama sem derreter? Tinha cooler? Tinha gelo seco? A gente entrava no fliperama e o cara não parava de olhar para você, porque ele queria saber se você ia sacanear a máquina. A gente até levantava a mesa para ganhar a bola. Mas você realmente acha que iam deixar alguém entrar lá com um isopor? Daí falam: “Ah, eu levava no bolso”. Como você leva no bolso uma ficha de gelo sem derreter? Então, isso eu acho que nunca existiu mesmo; na minha opinião, é historinha.Já ouvi papo de o técnico abrir a porta para retirar as moedas e tudo estar molhado, mas não dá, cara, se você joga água dentro da máquina, ferra tudo. Vou pegar todas as lendas e tentar reproduzir, porque eu acho que metade não funciona. Agora, chumbinho, Magiclick e furar a ficha e ficar com uma cordinha, isso aí é normal, isso aí eu já vi.R7 Entrevista — Antes de abrir o Old School você teve outros empregos, certo?Ricardo Kobe — Eu trabalhei em diversas empresas, como todo mundo. Trabalhei na Volkswagen e na Honda Motors; depois, fui para a Varig, onde trabalhei na contabilidade de bilhetes, e de lá para a VASP, que foi meu último emprego como empregado. Cuidava de lost luggage, que é bagagem perdida. Fui para o terminal de carga, trabalhei como despachante de pista no carregamento e descarregamento da aeronave. Fui para o Japão na década de 1990, como todo outro peão. Trabalhei lá por três anos, em uma fábrica. Só tinha brasileiro lá indo trabalhar a troco de um salário bom. Era trabalho duro mesmo, a gente trabalhava 7x0!Quando voltei, montei uma empresa de importação e exportação internacional em que eu era despachante aduaneiro. Depois fechei essa empresa e abri uma agência de publicidade, que durou até 2011, trabalhando de casa. Foi então que comecei a comprar mais máquinas. R7 Entrevista — E quando você comprou sua primeira máquina? Foi uma Fire Action, da Taito, certo? Como se sentiu, e por que decidiu finalmente comprar uma mesa?Ricardo Kobe — Comprei minha primeira máquina em 1989. Era a máquina que eu mais gostava, e fiquei muito tempo com ela. Aliás, tenho ela até hoje. O que acontece é que a máquina, na época, era sucata. A gente pagava R$ 50 em uma. O problema da máquina é que você precisa de espaço para guardar, tem que pagar aluguel, e aí não compensa. Essa era a época do declínio do pinball aqui em São Paulo, no Brasil e no mundo. Tinha galpão com 100, 200 máquinas. Já cheguei a pagar R$ 20 numa máquina, e o cara levou em casa. Ele tinha um espaço grande, com um monte de máquina, em que podia fazer dinheiro, e ele tinha que simplesmente se livrar. Já recebi ofertas para comprar cada uma por R$ 25, R$ 50, mas tinha que levar as 100 unidades. Onde é que eu vou pôr 100 máquinas, cara? Não dá. Então eu comprava uma, depois duas e aí, aos poucos, aumentou. Mas, na época, era preço de sanduíche, porque não valia nada mesmo. Eu lembro que, quando a gente era criança, uma máquina era o preço de um carro. Era uma grana. Começou a cair e aí o pessoal se desfez, teve que partir para outra. Todo mundo queimou a máquina e vendeu de “paulada”. E faziam fogueira mesmo! Porque se você tem um galpão e nele tem um monte de coisa que não presta e nem gera dinheiro, põe fogo, cara. R7 Entrevista — Para cuidar de tantas máquinas, você precisa de técnicos especialistas na área. Foi nessas que você encontrou o Spina, um dos melhores no ramo. Me conte sobre a sua relação com ele.Ricardo Kobe — Eu conheci o Spina um ano depois de comprar a Fire Action. O cara que me vendeu se chamava César e ele morava na mesma rua da mãe do Spina, em que o técnico tinha um laboratório de manutenção de placas. Um dia, quando fui falar sobre a máquina com o César, ele tinha se mudado para o interior. Aí o vizinho falou: “Olha, tem um cara aqui que mexe com máquina também”, e foi então que conheci o Spina.Manutenção é um negócio que não tem jeito. Quando se trabalha com essas máquinas, você faz manutenção várias vezes por semana. Quanto mais antigas, mais elas quebram. Se você não tiver um técnico de confiança, você tá roubado, e o Spina é quase que unanimidade nas Taitos, entendeu? Deve ter meia dúzia de técnicos bons no Brasil, e o Spina é um deles. Nessas, todo mundo o chama e acaba sendo muita procura. Ele ficou muito tempo aqui comigo, mas faz um ano que deixamos de trabalhar juntos. Agora quem faz a manutenção é um amigo dele.R7 Entrevista — Depois que seu acervo cresceu, você decidiu abrir o Old School. No que você pensou quando abriu o fliperama?Ricardo Kobe — Bem, chegou uma hora em que o hobby virou negócio. Eu sempre achei que a máquina não pode te dar despesa, ela tem que se pagar. Porque o investimento é alto. Se um colecionador tem um milhão de máquinas, por que pagar para guardar quando você podia transformar aquilo em negócio? Então eu e o Nicolau, que é o meu sócio, montamos algo totalmente diferente, diria que até mesmo do resto do mundo. Hoje tem bastante ‘barcade’, só que lá você paga a ficha. Aqui, você paga para entrar e jogar à vontade. Acho muito mais vantajoso. Porque o cara que vem aqui não é expert, então se ele for em outro lugar, em meia hora já pagou a entrada do Old School. Quando bolei isso aqui, fiz como um lugar que eu gostaria de ir junto com meus amigos.R7 Entrevista — Você coleciona vários itens das décadas de 1980, 1990 e 2000. Queria saber como você faz para encontrá-los. Você já disse anteriormente que seu trabalho é quase como o de um museu, mas também é semelhante ao de um arqueólogo?Ricardo Kobe — Não diria que chega a tanto. Só acho que tem que mostrar como é que era o negócio, não adianta você ter algo guardado e ninguém ver. Você precisa mostrar que há 20 anos era assim e há 40 era assado, sacou? No fim das contas, quase que virou um museu mesmo, mas é legal, principalmente por conta de quem visita e tem mais de 45 anos. Eles batem o olho na vitrine e se identificam com quase tudo, porque viveram aquilo. É diferente de um jovem que vem aqui, de 20 e poucos anos, que ainda não viveu nada. Ele olha e só acha legal. Já o cara que tem uma certa idade vê um negócio e fala: ‘Pô! Eu já fui nessa loja. Quando eu pegava táxi, tinha esse negócio, eu ligava nesse telefone’”, conta, entusiasmado.Eu também estou em dezenas de grupos de colecionadores de antiguidade, de brinquedo, de Coca-Cola, de tudo que você consegue imaginar. Quando a gente acha um negócio, compra. Não tenho nem que correr atrás. R7 Entrevista — E de todos os artefatos que você colecionou ao longo dos anos, qual é o seu favorito? Ou é que nem escolher um filho?Ricardo Kobe — Putz, cara, não tem. Todos são importantes aqui porque contam uma história. Eu acho que tudo é legal aqui. Eu acho que, com filho, você sempre tem o favorito, né? Não tem jeito, né? Por um jeito ou por outro. Mas aqui não tem jeito. Lembro de tudo que peguei, onde eu consegui e tal.R7 Entrevista — Vou mudar a pergunta então. De todos os objetos aí, qual foi o mais difícil de se encontrar?Ricardo Kobe — Vou contar só sobre um, e isso foi há 20 anos. Foi quando eu vi uma foto no Facebook de um antiquário e consegui enxergar no fundo um quadro 100x70cm da Coca-Cola, da década de 1980. Era uma propaganda que tinha meia dúzia de jovens jogando em três mesas. Nunca tinha visto aquela imagem antes. Acho que nem a Coca-Cola tem. Precisava do endereço dele. Aí a gente conversa com um, conversa com outro, conhece um amigo e ele me fala que o antiquário ficava na cidade tal. Liguei para o cara, que ficou me enrolando e fazendo leilão, porque ele sabia que eu estava interessado. Cada hora que eu ligava era um preço. No fim eu falei, “Amigão, quanto é que você quer?”. Paguei caro e falei para ele tirar o papel do vidro em que estava enquadrado, porque no transporte podia danificar o pôster. Daí ele me mandou com o vidro de qualquer jeito. Chegou aqui e tinha virado um embrulho com um monte de vidro.Eram milhares de pedaços que rasgaram a imagem. Tinha um personagem lá que já não tinha mais rosto. Na época eu trabalhava na agência e a gente trabalhava com restauração de foto no Photoshop. Isso aí era a pré-história do Photoshop. Eu e um amigo pagamos uma fortuna para mandar esse pôster ser escaneado em uma gráfica. Abrimos a reprodução no computador, fatiamos a imagem em 20 pedaços e restauramos pixel por pixel. Depois de quase um ano de trabalho, ficou um negócio lindo. Depois, pedi para um amigo meu que trabalha com impressão de alta qualidade reproduzir na melhor resolução possível. Hoje eu tenho ele impresso, guardado. Quando eu tiver espaço, coloco na parede. R7 Entrevista — E quanto às máquinas de pinball, também tem alguma que você adoraria ter e segue na caçada?Ricardo Kobe — Vixe, tem mais de 100 máquinas que eu gostaria e não consegui. É que nem quando você coleciona carro, você quer ter todos. Existem algumas mesas que eu já tive três modelos e agora não tenho nenhuma. No momento, não pretendo comprar mais nada, porque a gente já tem muita máquina. Ficam todas estocadas em um armazém. O problema é que, quando uma máquina fica parada, para fazer ela voltar são três meses de trabalho. Só de máquina parada, a gente deve ter umas 50. Ao todo, contando as que estão na ativa, tenho mais de 100.R7 Entrevista — E você consegue se ver aposentado no futuro?Ricardo Kobe — Não, pelo menos por enquanto. Eu nem penso nisso. Assim: o que eu mais gosto nem é a parte do pinball, é mais a coleção de objetos. Acho muito mais legal, e o que me deixa ainda mais animado é ver a reação das pessoas quando elas notam essas relíquias. No futuro, eu espero estar em um lugar maior, onde a gente consiga expor todas as coisas que a gente tem guardado. Todos os robôs, todas as estátuas, e fazer um negócio temático mesmo, um museu com M maiúsculo, bem feitinho, com curadoria. Aí seria o ideal. E lógico que ainda seria o Old School. *Sob supervisão de Arnaldo Pagano

Como um colecionador de mesas de pinball transformou hobby em reduto para nostalgia em SP
Como um colecionador de mesas de pinball transformou hobby em reduto para nostalgia em SP · Imagem: Source: noticias.r7.com
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Ao longo de várias décadas, Kobe montou um acervo invejável entre os colecionadores de máquinas de pinball Reprodção / Instagram @oldschoolpinball
Ao longo de várias décadas, Kobe montou um acervo invejável entre os colecionadores de máquinas de pinball Reprodção / Instagram @oldschoolpinball · Imagem: Ao longo de várias décadas, Kobe montou um acervo invejável entre os colecionadores de máquinas de pinball Reprodção / Instagram @oldschoolpinball
A estante de uma prateleira comporta objetos sortidos, dentre eles: duas embalagens antigas de sorvetes, uma embalagem da pomada Hipoglos, uma lata de fermento Royal e um bilhete de metrô.
A estante de uma prateleira comporta objetos sortidos, dentre eles: duas embalagens antigas de sorvetes, uma embalagem da pomada Hipoglos, uma lata de fermento Royal e um bilhete de metrô. · Imagem: Embalagens antigas e até passagens de metrô estão expostas nas prateleiras do fliperama Reprodução / Acervo pessoal
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Uma estante cheia de objetos e brinquedos dos anos 80 e 90 está alocada em um canto.
Uma estante cheia de objetos e brinquedos dos anos 80 e 90 está alocada em um canto. · Imagem: Kobe deseja mudar para um espaço maior e abrir um 'museu com M maiúsculo', nas próprias palavras Reprodução / Acervo pessoal
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A amizade de Kobe e Spina tem vários anos de história e foi importante no início do Old School Reprodução / Acervo pessoal
A amizade de Kobe e Spina tem vários anos de história e foi importante no início do Old School Reprodução / Acervo pessoal · Imagem: A amizade de Kobe e Spina tem vários anos de história e foi importante no início do Old School Reprodução / Acervo pessoal
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